O Peso de Um Ticket de 200 Euros
Estou parada na estação Interlaken Ost, olhando para o painel de horários, e meu dedo paira sobre o botão "Confirmar Pagamento" no aplicativo da SBB. O valor na tela pisca de forma acusatória: cerca de 200 francos suíços. Para subir uma montanha. Sozinha.
A dúvida é inevitável. Com esse dinheiro, eu poderia ter um jantar de estrelas Michelin, duas noites em um hotel boutique ou comprar aquela bolsa que estou namorando. Além disso, o Jungfraujoch (Top of Europe) tem fama de ser uma armadilha para turistas — lotado, barulhento, caótico. Exatamente o oposto do "dia de relaxamento" que eu havia prometido a mim mesma.
Mas havia algo magnético na ideia de estar a 3.454 metros de altura, acima das nuvens, acima dos problemas, acima do ruído do mundo. Eu precisava de perspectiva. E, às vezes, para mudar sua perspectiva interna, você precisa mudar sua altitude física.
Respirei fundo e comprei o bilhete.
O que aconteceu nas seis horas seguintes não foi apenas um passeio turístico. Foi um ritual de desconexão. Descobri que, sim, o Jungfraujoch é caro e popular, mas se você souber como navegar por ele (especialmente estando sozinha), ele se transforma em um dos santuários de paz mais impressionantes da Terra.
A Subida: Uma Meditação em Movimento
A viagem começa muito antes de tocar a neve. Saí de Interlaken em direção a Grindelwald Terminal. O segredo para quem busca relaxamento? Evite o trem antigo que demora 1h30 para subir. Eu escolhi a rota moderna via Eiger Express.
Este teleférico triciclo é uma maravilha da engenharia. Estando sozinha, tive a sorte de pegar uma cabine quase vazia. Enquanto flutuávamos sobre as pastagens alpinas, vendo as vaquinhas diminuírem até virarem pontos marrons, coloquei meus fones de ouvido.
Em 15 minutos, fui transportada do verde vibrante para o reino da rocha cinza e do gelo. A troca para o trem vermelho final, que entra no túnel escavado dentro da montanha, serviu como um portal. A escuridão do túnel resetou meus sentidos. Quando desembarcamos no topo, eu não estava mais na Suíça dos relógios e chocolates. Eu estava em outro planeta.
O Topo: A Arte de Encontrar o Silêncio na Multidão
Ao sair do trem, o primeiro impacto é o ar. Ele é fino, frio e incrivelmente limpo. O segundo impacto é a multidão no saguão principal. Grupos de excursão, bandeiras, selfies sticks. O instinto inicial é de fuga. E foi exatamente o que fiz.
A maioria dos turistas segue o fluxo: Sphinx Observatory, Palácio de Gelo, Loja de Souvenirs. Eu fiz o caminho inverso. Fui direto para a saída que leva ao Plateau de Neve.
O Caminho Para Mönchsjochhütte
Aqui está o segredo que vale os 200 euros: a trilha para a Mönchsjochhütte.
É uma caminhada de cerca de 45 minutos a 1 hora sobre a neve (a trilha é batida por máquinas, então é segura e não precisa de equipamento técnico, apenas botas robustas).
90% das pessoas não fazem essa caminhada. Elas tiram a foto na placa "Top of Europe" e voltam para o calor. Eu comecei a andar.
Aos poucos, as vozes dos turistas desapareceram. O zumbido dos drones sumiu. De repente, era só eu, o som crocante das minhas botas na neve e o gigante Glaciar Aletsch — o maior dos Alpes — se estendendo como um rio congelado até o infinito.
Caminhar sozinha a essa altitude exige um ritmo lento. Você é forçada a desacelerar. Cada respiração é consciente. É uma meditação forçada. O sol refletia na neve com uma intensidade que parecia limpar a mente.
Cheguei perto da cabana, mas não entrei. Sentei-me em uma rocha (com um casaco impermeável por baixo) e simplesmente fiquei ali. Sozinha. No teto da Europa.
O Retorno e o Doce Sabor do Investimento
Depois de uma hora de silêncio absoluto, voltei para o complexo principal. Agora, a multidão não me incomodava mais. Eu estava blindada pela paz que encontrei na geleira.
Passei pelo Palácio de Gelo, deslizando as mãos pelas paredes frias, e terminei o passeio na Lindt Swiss Chocolate Heaven. Sim, é uma loja turística. Mas comprar uma barra de chocolate exclusiva lá em cima, depois da caminhada no frio, pareceu um prêmio merecido.
Valeu a pena?
Se você olhar apenas para o "produto" (um bilhete de trem e uma vista), é caro. Mas eu não paguei por transporte.
- Eu paguei €200 para ter acesso a um silêncio que não existe nas cidades.
- Eu paguei para lembrar que sou capaz de navegar o mundo sozinha.
- Eu paguei para almoçar com uma vista que reis e rainhas do passado jamais sonharam em ter.
Guia Prático para Mulheres Viajando Solo no Jungfrau
1. Segurança e Conforto: É perigoso? Zero. A Suíça é um dos lugares mais seguros do mundo. Para o mal da altitude, beba muita água e evite álcool na noite anterior.
2. Fotos Sozinha: Não tenha vergonha de pedir, mas leve um mini tripé flexível e use o timer. O melhor cenário é na trilha para a Mönchsjochhütte.
3. O Horário de Ouro: Para fugir das multidões, pegue o primeiro trem da manhã (8h) ou o último da tarde. Eu fui no primeiro horário e tive a montanha para mim.
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