Há um momento específico em que Zermatt te captura. Não é quando você lê sobre ela em um guia. Não é quando vê fotos no Instagram. É quando você está no trem, subindo desde Täsch (o último ponto onde carros são permitidos), e de repente, pela janela, surge aquela silhueta.
O Matterhorn.
A montanha mais fotogênica do mundo. A pirâmide perfeita de 4.478 metros que inspirou o logo da Paramount Pictures e a forma do chocolate Toblerone. Ela aparece como um dente de pedra cravado no céu, desafiando a gravidade e a lógica.
Naquele momento, eu entendi por que Zermatt recebe milhões de visitantes por ano. Mas o que eu não esperava era descobrir que o Matterhorn é apenas a porta de entrada. A verdadeira magia de Zermatt está no que acontece depois da primeira foto.
Passei três dias nesta vila alpina sem carros, e cada dia descascou uma camada diferente dessa cebola suíça. O primeiro dia foi sobre adrenalina e altitude. O segundo, sobre luxo inesperado e sabores que redefiniram minha definição de "comida de montanha". O terceiro foi sobre silêncio, reflexos em lagos glaciares e a cultura Valaisana que resiste ao tempo.
Vou te mostrar como transformar 72 horas em Zermatt em uma experiência completa, desde o nascer do sol no Gornergrat até o jantar estrelado com vista para o gigante de pedra.
Dia 1: O Amanhecer no Topo do Mundo
Rota: Zermatt ➔ Gornergrat (3.089m) ➔ Trilha de Descida
Foco: Adaptação à Altitude e Primeira Conquista
A Chegada em Zermatt: Uma Vila Fora do Tempo
Zermatt não permite carros a gasolina. Ponto final. Quando você desce do trem na estação principal, o que te recebe não é o barulho de motores, mas sim o som suave de táxis elétricos e charretes puxadas por cavalos.
É desorientador no melhor sentido possível. Parece que você entrou em um cenário de filme dos anos 1920, exceto que as lojas vendem equipamentos de alpinismo de última geração e os hotéis têm Wi-Fi de 500 Mbps.
Deixamos as malas no Hotel Schweizerhof Zermatt (um 5 estrelas com varanda de frente para o Matterhorn — sim, você acorda com a montanha te encarando). Mas não ficamos no quarto. Eram 7h da manhã, e nossa missão era clara: subir o Gornergrat antes das hordas de turistas.
Gornergrat Railway: O Trem que Mudou Minha Definição de "Vista"
O Gornergrat Railway não é apenas transporte; é uma experiência sensorial. Este trem de cremalheira vermelho, inaugurado em 1898, sobe 1.469 metros em apenas 33 minutos.
Compramos os bilhetes na estação (dica: compre online com antecedência para evitar filas) e embarcamos no primeiro trem. O vagão estava semivazio. À medida que subíamos, o verde dos pinheiros deu lugar ao cinza das rochas, depois ao branco eterno da neve.
A cada curva, o Matterhorn mudava de ângulo, revelando novas faces. Mas ele não estava sozinho. Através das janelas panorâmicas, começaram a aparecer outros gigantes: Monte Rosa, Liskamm, Castor, Pollux. São 29 picos acima de 4.000 metros visíveis do Gornergrat.
Quando o trem parou na estação final, a 3.089 metros, descemos e o ar nos atingiu como um soco gelado e revigorante.
O Show de 360 Graus
A plataforma de observação do Gornergrat é um teatro natural. O Matterhorn domina o horizonte à direita, mas à esquerda, a Geleira Gorner se estende como um oceano congelado. Ao fundo, o Monte Rosa (o segundo pico mais alto dos Alpes) brilha sob o sol da manhã.
Fizemos o que todo mundo faz: tiramos centenas de fotos. Mas depois de 20 minutos, guardei o celular. Porque nenhuma câmera captura a sensação física de estar ali. O frio no rosto. O silêncio quebrado apenas pelo vento. A vertigem de olhar para baixo e ver nuvens abaixo de você.
Tomamos café da manhã no Kulmhotel Gornergrat (o hotel mais alto dos Alpes, onde você pode dormir com vista para o Matterhorn se quiser). Um croissant suíço, um café expresso e a melhor vista do mundo. Custou 25 francos. Valeu cada centavo.
A Descida: Trilha de Riffelberg
Aqui está o segredo que poucos turistas sabem: você pode descer a pé e o bilhete do trem cobre paradas intermediárias.
Pegamos a trilha de descida até Riffelberg (cerca de 5 km, 1h30 de caminhada). O caminho é bem marcado e, embora seja em declive, não é tecnicamente difícil. O que é difícil é parar de olhar para o Matterhorn, que te acompanha como um guardião silencioso durante toda a descida.
Passamos por marmotas (os roedores mais fofos da Suíça) e flores alpinas que pareciam ter sido pintadas à mão. Em Riffelberg, paramos no restaurante da estação para provar o primeiro raclette da viagem — queijo derretido raspado sobre batatas. Simples, mas quando você está a 2.582 metros, é comida dos deuses.
A Noite na Vila: Primeira Impressão da Cultura Local
Zermatt à noite é mágica. As ruas estreitas de pedestres são iluminadas por lanternas, e o Matterhorn, agora uma silhueta negra recortada contra o céu estrelado, parece uma catedral de pedra.
Jantamos no Whymper-Stube, um restaurante tradicional com paredes de madeira escura e cheiro de lenha queimando. Pedimos fondue de queijo (clássico) e Valais Platte (uma tábua de frios locais). A garçonete nos contou histórias sobre a primeira tentativa de escalar o Matterhorn em 1865, que terminou em tragédia quando quatro alpinistas morreram na descida.
Essa combinação de beleza e perigo é o DNA de Zermatt. A montanha inspira, mas também exige respeito.
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Onde ficamos: Hotel Schweizerhof Zermatt
Dica Pro: Compre o Peak Pass se planeja subir também ao Glacier Paradise. Ele combina ambos com desconto.
Dia 2: Glacier Paradise e a Revelação Gastronômica
Rota: Zermatt ➔ Matterhorn Glacier Paradise (3.883m) ➔ Museu ➔ Jantar Michelin
Foco: Altitude Extrema e Luxo Culinário
Subindo ao Ponto Mais Alto Acessível da Europa
Se o Gornergrat foi impressionante, o Matterhorn Glacier Paradise é de outro planeta.
Este é o teleférico mais alto da Europa, chegando a 3.883 metros. A subida é feita em três etapas: Zermatt ➔ Furi ➔ Trockener Steg ➔ Glacier Paradise. Em cada troca, o ar fica mais fino e a vista mais surreal.
Na estação intermediária de Schwarzsee, tivemos nossa primeira visão do Matterhorn de perto. A parede norte da montanha sobe verticalmente à nossa frente. Dá para entender por que ela matou tantos alpinistas — é pura intimidação em forma de rocha.
No topo, o frio é brutal (mesmo em julho, estávamos a -10°C). Mas dentro do complexo há um Palácio de Gelo esculpido no interior da geleira. Corredores e esculturas de gelo azul translúcido criam um ambiente de conto de fadas congelado.
A Ponte para o Infinito
Mas a verdadeira atração é a plataforma externa. Há uma ponte suspensa que conecta dois pontos da montanha, e quando você caminha sobre ela, tudo o que você vê abaixo são 1.000 metros de vazio.
Não vou mentir: minhas pernas tremeram. Mas a vista? A Itália de um lado, a Suíça do outro, e o mar de picos alpinos se estendendo até o infinito. É o tipo de cenário que faz você entender por que as pessoas se tornam obcecadas por montanhas.
Descida e Cultura: O Museu Matterhorn
De volta a Zermatt, dedicamos a tarde ao Matterhorn Museum Zermatlantis. Este museu subterrâneo recria a vila original de Zermatt antes do turismo, e conta a história da primeira escalada bem-sucedida do Matterhorn.
O ponto mais arrepiante? A corda original que se rompeu durante a descida de 1865, matando quatro homens. Ela está exposta ali, desgastada e fina. Um lembrete físico de que a beleza dos Alpes vem acompanhada de risco.
O Jantar que Mudou Tudo
Eu não esperava comer tão bem em Zermatt. Para mim, "comida de montanha" significava sopas pesadas e queijo (não que haja nada de errado com isso). Mas Zermatt tem 4 restaurantes estrelados pelo Michelin.
Reservamos (com um mês de antecedência) uma mesa no After Seven, dentro do hotel The Omnia. É um restaurante com uma estrela Michelin, mas a experiência é de três.
O menu degustação de 7 pratos foi uma viagem. Destacaram-se:
- Truta alpina defumada com espuma de raiz-forte e caviar de trutas locais
- Cordeiro Valais (criado nas montanhas ao redor) com purê de castanhas e jus de vinho tinto
- Sobremesa de chocolate com sal de Cervia e sorvete de pinho suíço
Cada prato era uma obra de arte. Mas o que me surpreendeu foi a localidade dos ingredientes. Tudo vinha de um raio de 50 km. O chef, Ivo Adam, não está tentando copiar a alta gastronomia francesa; ele está elevando a culinária alpina ao nível de arte.
A refeição durou três horas. Enquanto comíamos, a janela panorâmica do restaurante enquadrava o Matterhorn, agora iluminado pela lua. Foi, sem exagero, o melhor jantar da minha vida.
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Alternativa Michelin: Se o After Seven estiver lotado, o Chez Vrony (na montanha de Findeln) oferece gastronomia estrelada com vista para o Matterhorn durante o almoço.
Dia 3: Os Cinco Lagos e a Despedida Perfeita
Rota: Trilha 5-Seenweg (Cinco Lagos) ➔ Cabana Tradicional ➔ Última Vista
Foco: Contemplação, Fotografia e Cultura Viva
A Trilha Mais Fotogênica dos Alpes
Acordamos cedo novamente. Nosso último dia em Zermatt seria dedicado à 5-Seenweg (Trilha dos Cinco Lagos), considerada uma das caminhadas mais bonitas da Suíça.
Pegamos o teleférico até Sunnegga (2.288m) e começamos a trilha. O percurso completo é de cerca de 9 km e leva 2h30, mas você pode fazer apenas parte dele.
O conceito é simples, mas genial: a trilha passa por cinco lagos alpinos (Stellisee, Grindjisee, Grünsee, Moosjisee e Leisee), e em cada um deles, o Matterhorn se reflete de um ângulo diferente.
O primeiro lago, Stellisee, é o mais famoso. Chegamos lá por volta das 9h, quando o vento estava calmo. A superfície da água era um espelho perfeito. O Matterhorn invertido na água parecia tão real quanto o original no céu.
Sentamos ali por 40 minutos. Outros caminhantes passavam, tiravam suas fotos e seguiam. Mas nós ficamos. Porque momentos como esse não podem ser apressados.
Pausa na Cabana: Queijo com História
No meio da trilha, paramos na Fluhalp, uma cabana alpina tradicional (Alphütte) que serve como restaurante e ponto de descanso.
Pedimos uma tábua de queijos locais e conversamos com o dono, um senhor de 67 anos chamado Hans. Ele nos contou que sua família cuida daquela cabana há quatro gerações. No verão, ele sobe com as vacas e produz queijo artesanal no local.
Provamos um queijo curado de 18 meses, feito com leite das vacas que pastavam literalmente ao nosso lado. O sabor era intenso, salgado, complexo. Não tinha nada a ver com o queijo suíço industrializado que você compra no supermercado.
Hans nos mostrou o porão onde os queijos envelhecem. "As montanhas dão o sabor", ele disse. "O ar, a altitude, as ervas que as vacas comem. Cada vale tem seu próprio gosto."
Foi uma aula de terroir alpino. E a melhor parte? Custou 15 francos.
O Último Olhar
Terminamos a trilha descendo até o Leisee, o último lago, que é raso e aquecido pelo sol. No verão, famílias locais nadam ali. Tiramos os tênis e colocamos os pés na água gelada.
O Matterhorn continuava lá, impassível, assistindo a tudo. E eu percebi algo: a montanha não muda. Somos nós que mudamos ao redor dela.
Três dias antes, eu tinha chegado em Zermatt como mais um turista em busca de fotos para o Instagram. Estava saindo como alguém que entendia, mesmo que superficialmente, o que significa viver em simbiose com a montanha.
A Despedida
Pegamos o trem de volta para Zermatt. Na estação, fizemos uma última parada no Hinterdorf Zermatt, o bairro histórico onde ficam os celeiros de madeira original (Mazots) de 400 anos.
Caminhamos entre essas construções negras de madeira queimada (técnica de conservação chamada Schindeln), que contrastavam com os hotéis modernos da rua principal. Era um lembrete físico de que Zermatt foi, antes de tudo, uma comunidade de pastores e guias de montanha.
Compramos alguns souvenirs (chocolate Toblerone, claro) e pegamos o trem de volta para o "mundo normal".
Enquanto Zermatt desaparecia pela janela e o Matterhorn diminuía até virar uma miniatura no horizonte, senti aquela melancolia boa de quem sabe que viveu algo raro.
Conclusão: O Matterhorn Te Traz, Mas Zermatt Te Conquista
Três dias em Zermatt poderiam ter sido apenas uma corrida turística. Subir montanhas, tirar fotos, voltar para casa.
Mas quando você desacelera — quando você caminha em vez de correr, quando senta em vez de apenas passar — Zermatt revela suas camadas.
É uma vila que equilibra perfeitamente tradição e modernidade. Onde você pode jantar em um restaurante Michelin de manhã e comer queijo feito à mão em uma cabana de 300 anos à tarde. Onde a aventura não exclui o luxo.
E o Matterhorn? Ele é o anfitrião silencioso. Te observa de todos os ângulos. Te lembra que, não importa quantas fotos você tire, nunca vai capturar completamente a sensação de estar ali, pequeno e maravilhado, aos pés de um gigante de pedra.
Se você está planejando ir à Suíça e tem dúvidas se Zermatt "vale a pena" (porque sim, é caro), minha resposta é: absolutamente sim. Mas não vá correndo. Dê a Zermatt pelo menos três dias. Suba devagar. Coma bem. Caminhe sozinho.
E quando o Matterhorn aparecer refletido em um lago alpino no seu último dia, você vai entender que não foi apenas uma viagem. Foi uma escola.
🎒 Checklist de Bolso para Zermatt
- Sapatos de Trilha Impermeáveis (essencial para trilhas e neve)
- Protetor Solar FPS 50+ (a altitude queima mesmo com frio)
- Garrafa Térmica (para café quente nas trilhas)
- Reserva de Restaurantes (faça com 1 mês de antecedência para os Michelin)
- App Zermatt Matterhorn (mapas offline e trilhas)
- Dinheiro em Francos (algumas cabanas só aceitam cash)