Kyoto: 72 Horas Entre o Sagrado e o Sofisticado
O cheiro de incenso misturado ao aroma de café recém-preparado me acordou na primeira manhã. Pela janela do meu quarto no Imperial Hotel, Kyoto, as luzes suaves de Gion ainda piscavam contra o céu que começava a clarear. Eram 5h47 da manhã, e eu já sabia que aqueles três dias mudariam completamente minha definição de luxo. Não seria sobre fios de ouro ou mármores frios — seria sobre acordar no coração pulsante de uma cidade milenar e ter a coragem de se perder nela.
Antes de Kyoto, eu acreditava que aventura e conforto eram opostos. Que para viver experiências autênticas, era preciso abrir mão de boas camas e chuveiros quentes. O Imperial Hotel me provou o contrário de uma forma que ainda me pega desprevenido quando fecho os olhos e revivo aquelas 72 horas.
Chegada: Quando Gion Me Recebeu Com Suas Lanternas Acesas
O táxi me deixou na entrada do hotel às 18h23 de uma quinta-feira de março. Eu havia voado 28 horas desde São Paulo, mas o cansaço desapareceu quando vi o edifício Yasaka Kaikan iluminado. O Imperial Hotel não grita luxo — ele sussurra tradição. Cinquenta e cinco quartos ocupam um prédio histórico que já foi teatro e centro cultural.
"Boa noite, senhor. Bem-vindo ao Gion", disse Yuki, a recepcionista, com uma reverência tão natural que parecia coreografada pela própria cidade. Ela não perguntou se era minha primeira vez no Japão — ela perguntou se era minha primeira vez em casa.
Meu quarto ficava no quarto andar. Quando a porta se abriu, entendi por que o Imperial escolheu Gion. Pela sacada, eu via diretamente o Yasaka Shrine, suas lanternas vermelhas flutuando na escuridão como vagalumes gigantes.
Dia 1: Dez Mil Portais e Uma Lição Sobre Persistência
Acordei às 5h30 sem despertador. Vesti uma calça leve e desci para o café da manhã às 6h15. O restaurante do Imperial serve um híbrido fascinante: você pode escolher um café da manhã ocidental completo ou um tradicional japonês. Optei pelo segundo: peixe grelhado, missoshiro fumegante, arroz pegajoso e tamagoyaki.
Peguei o metrô às 6h50 na estação Gion-Shijo. Quinze minutos depois, estava diante do Fushimi Inari-Taisha, o santuário dos dez mil toriis vermelhos que eu havia visto em mil fotos, mas que ainda conseguiu me deixar sem ar.
Duas horas e 47 minutos depois de começar, cheguei ao topo real da montanha. Lá em cima, Kyoto era um tapete de telhados cinzas e verdes, cercado por montanhas azuladas. Eu estava suado, com as pernas tremendo, mas completamente vivo.
Tarde em Gion: Perdido Entre Tradição e Modernidade
Caminhei sem rumo por duas horas. Encontrei um templo escondido onde ninguém cobrava entrada e descobri uma loja de cerâmica onde cada tigela contava uma história. Às 18h45, cheguei ao Philosopher's Path. Naquela hora, a luz dourada do fim de tarde transformava tudo em cartão postal.
Noite: Quando Pontocho Alley Me Ensinou a Beber Sake
Pontocho Alley fica a literalmente 10 minutos a pé do hotel. É uma rua estreitíssima, paralela ao rio Kamo, com dezenas de izakayas espremidos lado a lado. Lanternas vermelhas, fumaça de churrasqueiras, risadas altas vazando das portas.
Dia 2: Bambus, Montanhas e a Melhor Refeição da Minha Vida
O segundo dia começou com uma garoa fina que deixava Kyoto com cara de filme do Studio Ghibli. O Bamboo Grove de Arashiyama é uma das imagens mais icônicas da cidade. Cheguei às 9h30, antes do pico de visitação.
No final do bosque, visitei o Tenryu-ji Temple. Sentei no engawa (a varanda de madeira) por 40 minutos. Três carpas douradas nadavam em círculos preguiçosos e a chuva pingava do telhado em uma cadência que induz meditação involuntária.
À tarde, decidi subir o Monte Daimonji sob chuva. Aos 45 minutos de subida, cheguei à plataforma. A vista era inexplicável. Kyoto inteira se estendia abaixo de mim, coberta por nuvens baixas que davam ao cenário um ar de sonho.
A Refeição Que Redefiniu Comida
À noite, o jantar foi uma experiência omakase. O Wagyu A5 de Kobe, selado por 47 segundos, derretia antes da carne chegar à boca. "Simplicidade honra a vaca", explicou o chef. Cada prato era uma declaração de intenções.
Dia 3: Templos, Despedidas e Promessas de Voltar
Kyoto tem mais de 1.600 templos. No último dia, visitei o Kiyomizu-dera às 7h45 da manhã. Tive 20 minutos praticamente sozinho na plataforma de madeira suspensa sobre a colina, vendo a cidade acordar abaixo da névoa.
Três dias não são suficientes para Kyoto. Três semanas não seriam. Mas são suficientes para mudar como você viaja. O Imperial Hotel não foi apenas onde dormi. Foi meu cúmplice. O lugar que me acolhia todas as noites e me devolvia ao mundo renovado todas as manhãs.
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Imperial Hotel, Kyoto: 55 quartos no histórico edifício Yasaka Kaikan, distrito de Gion.
Melhor época: Outubro-Novembro (folhas de outono) ou Março-Abril (cerejeiras).
Dica de Ouro: Compre um pocket wifi no aeroporto. Google Maps é seu melhor amigo aqui.