Dois Dias Hospedados no Ritz Paris: A História de Como Realizamos um Sonho Parisiense Juntos

Place Vendôme, 15h37: Três Amigos e Um Sonho Realizado

O motorista do táxi anunciou "Nous sommes arrivés" enquanto freava suavemente diante do número 15. Mariana foi a primeira a descer, congelando por três segundos completos ao ver a fachada neoclássica. Lucas saiu logo atrás, ajustando os óculos nervosamente. Quando pisei no paralelepípedo irregular da praça mais elegante de Paris, minha única reação foi um suspiro longo — aquele tipo de exalação que carrega meses de expectativa.

Fachada do Ritz Paris na Place Vendôme

Um porteiro surgiu instantaneamente, como se tivesse sido invocado. Uniforme azul-marinho impecável, luvas brancas imaculadas, postura militar suavizada por um sorriso genuíno. "Bienvenue au Ritz Paris," sua voz tinha peso, como se pronunciasse um encantamento. Antes que pudéssemos reagir, nossas malas já estavam sendo transportadas por mãos que claramente faziam aquilo há décadas.

"Isso tá acontecendo mesmo?" Mariana apertou meu braço, olhos brilhando. Lucas soltou uma gargalhada meio descontrolada. "Cara, se meu cartão for recusado lá dentro, eu pulo na fonte." Apontou para a Colonne Vendôme no centro da praça octogonal. Rimos porque era isso ou começar a chorar — cinco anos planejando esse momento tinham nos deixado emocionalmente vulneráveis.

Atravessar o hall de entrada foi como mergulhar em âmbar dourado. Som primeiro: silêncio espesso, quebrado apenas por murmúrios discretos em francês e o tinir distante de cristais. Depois o olfato: bouquet floral entrelaçado com couro antigo e algo que só posso descrever como "riqueza envelhecida" — não perfume sintético, mas o aroma de 125 anos impregnado em cada superfície. Por último, a visão: colunas de mármore ascendendo infinitamente, lustres de cristal Baccarat refratando luz em mil direções, tapetes persas que provavelmente custavam mais que apartamentos inteiros.

Lobby luxuoso do Ritz Paris

"Eu oficialmente não pertenço aqui," murmurei, consciente da minha mochila surrada contrastando com as malas Louis Vuitton ao nosso redor. Mas então uma recepcionista — coque francês perfeito, tailleur preto sem uma ruga — nos chamou pelo nome completo, incluindo sobrenomes que ninguém usa.

"Monsieur Silva, Mademoiselle Ferreira, Monsieur Oliveira, welcome back." Sua entonação sugeria que éramos hóspedes regulares, não três brasileiros de primeira viagem tremendo por dentro. Lucas me cutucou, sussurrando "ela disse 'back'", mas a recepcionista capturou o momento com elegância: "No Ritz, todos retornam para casa. Mesmo na primeira vez."

Corredor Vendôme: Caminhando Por História Viva

O check-in durou onze minutos cronometrados — sim, contei mentalmente porque minha ansiedade precisava de algo para fazer. Enquanto a recepcionista processava documentos com eficiência silenciosa, ela explicou que nossos quartos ocupavam o segundo andar, corredor Vendôme, adjacentes conforme solicitamos. Três cartões-chave chegaram dentro de envelopes creme com nossos nomes escritos à mão em caligrafia que parecia saída de um romance de Proust.

O elevador comportava quatro pessoas apertadas. Painéis de madeira entalhada envolviam um espelho com moldura dourada que valia, sem exagero, mais que meu salário anual. Mariana registrou nosso reflexo — três rostos ainda processando a realidade, mistura de euforia contida e descrença. Essa foto está emoldurada na minha mesa há dois anos.

Segundo andar. Portas se abriram para um corredor que poderia estar em Versalhes. A passadeira engolia nossos passos; impossível fazer barulho mesmo tentando. Quadros originais — certificados discretos nas molduras comprovavam autenticidade — pendiam em intervalos matemáticos. Apliques de bronze projetavam luz âmbar, e mesas laterais sustentavam arranjos florais trocados diariamente, segundo descobrimos depois.

Corredor histórico do Ritz Paris

"Coco Chanel morou neste andar por 34 anos," Lucas compartilhou, fruto de sua semana obcecada assistindo documentários sobre o Ritz. "Apartamento número 302. Ela descia para jantar no Espadon usando joias que valem museus inteiros." Tentei imaginar a estilista atravessando aquele mesmo corredor décadas atrás, provavelmente com a mesma reverência que sentíamos.

Encontramos nossos quartos em sequência: 212, 213, 214. Mariana girou o cartão primeiro, empurrando a porta com hesitação teatral. "Se tem fantasma de escritor suicida aí dentro, eu desisto." Referência ao Hemingway Bar no térreo, onde o autor costumava beber até não conseguir mais andar. Mas quando ela entrou e soltou um "meu Deus" prolongado, Lucas e eu praticamente corremos para nossas portas.

Quarto 213: Quando Sonho Vira Endereço Temporário

Girei o cartão. Clique discreto, quase inaudível. Empurrei a porta de madeira maciça — devia pesar 30 quilos — e entrei no que seria meu lar por 48 horas. Vinte e oito metros quadrados de perfeição obsessiva.

Interior do Quarto no Ritz Paris

Cama king-size dominava o centro, posicionada contra um painel de tecido acolchoado em tons creme e ouro emoldurado por madeira trabalhada à mão. Lençóis — toquei imediatamente, não resisti — tinham textura de nuvem transformada em fibra. Contei seis travesseiros arranjados em camadas que pareciam escultura têxtil. Edredom esticado com precisão militar, sem uma ruga sequer.

À esquerda, duas poltronas Luís XVI de veludo azul-petróleo ladeavam mesinha redonda onde já aguardavam: cesta de frutas frescas, garrafa de água mineral em vidro grosso, e cartão manuscrito: "Cher Monsieur Silva, seja bem-vindo ao Ritz. Esperamos tornar sua estadia inesquecível. — Jean-Marc, Concierge."

Mas foram as janelas que paralisaram meus pensamentos. Três delas, altas até quase tocar o teto de 3,5 metros, emolduradas por cortinas de seda creme presas com cordões dourados trançados. Atravessei o quarto em quatro passos e abri a central — dobradiças silenciosas, movimento fluido como manteiga.

Vista da Place Vendôme a partir do quarto

Place Vendôme se estendeu diante dos meus olhos como pintura impressionista ganhando vida. A Colonne de la Grande Armée no centro, cercada por fachadas do século XVIII banhadas em luz dourada de fim de tarde. Apoiei as mãos na varanda de ferro forjado — gelado apesar do sol — e simplesmente respirei.

"Ei!" Mariana apareceu na porta conectando nossos quartos. Seu rosto estava vermelho. "Eu tô chorando e não sei por quê." Também chorava, percebi ao passar a mão no próprio rosto. Lucas surgiu segundos depois pelo corredor, descalço porque já tinha tirado sapatos para sentir o tapete persa.

"Banheira de mármore que cabe três pessoas," ele anunciou sem contexto. "Torneiras banhadas a ouro. Produtos de banho com embalagem de perfumaria francesa. Roupões que pesam dois quilos cada de tão felpudos."

Banheiro de mármore luxuoso

Ficamos ali parados por tempo indeterminado — podiam ser dois minutos ou vinte — apenas existindo naquele momento que tínhamos construído juntando economias. Valeu cada euro.

Primeiro Entardecer: Descobrindo o Jardim Secreto

No térreo, viramos à esquerda seguindo placas discretas indicando "Jardin". Porta de vidro pesada abriu para visão que nenhum de nós esperava: jardim interno de 1.500 metros quadrados escondido no coração do Ritz como segredo guardado há séculos.

Jardim interno do Ritz Paris

Gramado impecavelmente aparado formava tapete verde-esmeralda. Arbustos topiários em formas geométricas ladeavam caminhos de cascalho branco. "Isso existe mesmo?" Mariana fotografou compulsivamente. Um garçom apareceu como fantasma elegante, oferecendo champagne de cortesia em taças de cristal. Aceitamos sem hesitar.

"À nossa amizade," Lucas brindou, voz embargada. "E aos cinco anos que demoramos pra chegar aqui." Bebemos devagar, esticando o momento porque sabíamos que memórias assim são raras e preciosas.

L'Espadon: Quando Jantar Vira Cerimônia

Às 20h25, descemos juntos. A entrada do L'Espadon nos parou. Salão amplo com teto envidraçado deixando ver o céu parisiense escurecendo. Mesas espaçadas com generosidade rara — mínimo dois metros entre cada uma, garantindo privacidade absoluta.

Restaurante L'Espadon no Ritz

O que veio a seguir foi menos jantar e mais experiência sensorial coreografada. O menu degustação de oito tempos começou a chegar com uma precisão impressionante. Cada prato era uma pequena obra de arte, como o Amuse-bouche de foie gras e as Ostras Gillardeau apresentadas em leito de gelo.

Prato gourmet do menu degustação

Oitavo tempo: Sobremesa de chocolate Valrhona com coração líquido, sorvete de baunilha Madagascar, e folha de ouro comestível. Quando Mariana cortou com colher, o chocolate derreteu formando poça brilhante no prato. "Isso deveria ser ilegal," ela declarou entre garfadas.

Sobremesa de chocolate Valrhona

Saímos do L'Espadon às 23h40, quatro horas depois de entrar, flutuando em nuvem etílica e sensorial.

Despertar no Ritz: Café da Manhã Como Ritual

Despertei às 9h23 sem alarme. Seguimos para o Salon Proust às 10h. O setup era buffet, mas buffet do tipo que nunca tinha visto. Ilha central de três metros exibia frutas cortadas com precisão cirúrgica e croissants ainda quentes, pain au chocolat e baguetes fatiadas.

Café da manhã no Salon Proust

Comemos em silêncio por dez minutos, reverentes. O croissant de Mariana tinha 127 camadas. Meu omelete estava fofo como soufflé, trufa liberando aroma terroso que dominava o prato. "Gente," Mariana disse eventualmente, "quando a gente voltar pra realidade, café da manhã normal vai ser depressão pura."

Versalhes: Passeio de Amigos com Base no Paraíso

Saímos do Ritz às 11h30. Concierge Jean-Marc tinha arranjado uma Mercedes Classe S preta esperando em frente ao número 15. Chegamos a Versalhes em 47 minutos. Entramos no palácio que foi lar de Luís XIV e Maria Antonieta — peso histórico quase visível no ar.

Palácio de Versalhes

Galeria dos Espelhos refletiu nossa imagem multiplicada ao infinito. Almoçamos em La Petite Venise dentro do parque — crepes de queijo e vinho branco francês leve, sentados ao ar livre. Voltamos ao Ritz às 17h, cansados mas satisfeitos.

Tarde Livre: Cada Um em Seu Ritual

Combinamos nos encontrar para jantar às 20h, mas antes disso, cada um seguiu seu desejo. Mariana foi ao Ritz Club, o spa do hotel no subsolo com sua icônica piscina aquecida de mosaico azul e tratamentos revigorantes.

Piscina do Ritz Club Spa

Eu voltei para o quarto 213. Vesti o roupão e me deitei na cama, apenas olhando o teto e processando as últimas 28 horas. Pensei em quantas decisões minúsculas levaram a esse momento. E agora estava aqui. No Ritz Paris.

Hemingway Bar: Drinks e Despedidas Antecipadas

Chegamos ao Hemingway Bar às 19h45. Ambiente escuro de propósito, madeira envelhecida cobrindo paredes, fotos em preto e branco de Hemingway decorando cada espaço. Sentamos em banquetas de couro na barra. Colin Field em pessoa nos cumprimentou.

Drinks no Hemingway Bar

Ele preparou o famoso "Serendipity" na nossa frente: Calvados, hortelã fresca, menta, limão, açúcar e gelo pilado. Explosão. Refrescante, alcoólico mas equilibrado. Ali, brindamos ao fim da nossa jornada, sabendo que o Ritz não era apenas um hotel, mas a materialização de um sonho compartilhado.

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